ELAP | Cardnews
On-line
 
 
   
Edição 174
Canal aberto
Carta ao leitor
Cenário econômico
Direto de Nova York
Fidelização
Legislação
Matéria da capa
Últimas notícias
Varejo
Institucional  
 
   



Vitrine Elap Cardnews

 

Em Nova York, uma churrascaria no ponto sem apetite para cartão

 

por Caio Blinder


Imagine se você chega a uma das melhores churrascarias de Nova York, a Peter Luger, come uma carne suculenta, fica incomodado com o serviço, mas no balanço sabe que o produto consumido compensou tudo. Sabe também que a conta será bem mais salgada do que a carne. O grande choque ainda não aconteceu: a churrascaria Peter Luger não aceita um prosaico e genérico cartão de crédito (o único que vale é o da própria casa). E este templo culinário na capital do mundo não está sozinho. Muitos restaurantes na cidade não aceitam cartão (crédito ou débito) e, caso você não queira pagar com dinheiro e teime com o plástico vivo pode se preparar para soltar um extra.

O choque apenas aumenta para turistas ou meros suburbanos que aparecem na cidade. Vários tipos de estabelecimentos em Nova York só aceitam pagamento com cash e a lista vai de salões de tatuagem a estacionamentos. Chinatown, em geral, vive em um outro século quando se trata de meios de pagamento. E ali floresce a economia informal. Em várias partes da cidade, está a nota escrita a mão, colada na caixa registradora: “$ 5 minimum, debit or credit”. Well, você pode argumentar que tal prática viola de forma flagrante as regras da Visa ou da MasterCard. Bem, estamos em Nova York, onde regras não se aplicam.

Regra essencial para um turista é ter à mão o guia Zagat. Uma das utilidades é a lista de 129 restaurantes, no Zagat, que só aceitam cash no pagamento, em comparação a 31 em Los Angeles, a segunda maior cidade dos EUA. O nova-iorquino de fato vive em outro planeta: o resto do mundo é outro mundo. Uma pesquisa mostra que o típico residente da cidade sacou 50% a mais de dinheiro em um caixa automático (US$ 844) no primeiro trimestre do ano do que a média nacional.

Existem muitas teorias (especulação é um termo mais apropriado) por que nova-iorquinos são tão apegados a uma economia de dinheiro vivo. Quem sabe é a profusão de mafiosos e sonegadores de impostos na cidade. Falando mais sério, é a alta incidência de gente sem conta bancária (1 em 10). Para quem prefere sacações sociológicas, trata-se de um excêntrico espírito de rebelião.

Restaurantes há que inclusive adotam manifestos políticos contra os cartões. Um boteco vegetariano no Village (o Angelica Kitchen) tem uma postura 68 e no seu cardápio um cartoon apregoa que o pagamento em cash ajuda produtores artesanais como o padeiro e o fornecedor de tofu. É verdade que a classe consumidora nem sempre adere com entusiasmo a este anacrônico espírito rebelde. E reclama bastante das limitações ao pagamento. Nova York, no entanto, sempre merece um crédito pela excentricidade de alguns comerciantes de ir contra a corrente em nome de princípios.

E que correnteza de plástico, mesmo na excêntrica Nova York. Os táxis aceitam cartão há três anos e a invasão de grandes cadeias de lojas forçou pequenos estabelecimentos a alterar sua política excêntrica. E, num projeto piloto, cinco dos 12 mil vendedores de rua (as carrocinhas registradas) agora aceitam cartão.

Existe o outro lado da moeda. No Village cabem diferentes tipos de excêntricos. No restaurante Commerce é proibido pagar com dinheiro vivo; afinal, o dono, Tony Zazula, é tão radical que paga até selo com cartão. A Visa adora Zazula e até fez um vídeo promocional no Commerce. Zazula, nas horas de folga, não deve devorar um steak no Peter Luger. Questão de princípios.

Target, uma das maiores cadeias do varejo barateiro dos EUA, pagou caro durante a recessão, em particular sua carteira de cartões de crédito, com o salto das inadimplências e falências. Mas onde há problema, pode haver solução. O grupo varejista agora recorre aos cartões para impulsionar as vendas num ambiente econômico ainda de fragilidade e muitas dúvidas quanto a se o consumidor voltará a atuar com o vigor de tempos passados. Entre outros fatores que seguram o consumo, está a persistência do alto desemprego.

A partir de setembro, os clientes com cartão co-branded Target terão 5% de desconto em cada compra nas filiais. O plano estará sendo implantado depois de uma fase piloto de oito meses em uma das lojas.

A expectativa é de que o programa de incentivo aumente as vendas de 1% a 2% nas filiais abertas há pelo menos um ano. O chamariz é significativo. Na verdade, um desconto de 5% em cada transação é inusitado. A estratégia será um desafio respeitável para a concorrência, em particular o gigante Wal-Mart, que tem uma base mais larga de clientes de renda mais baixa que serão tentados a ter cartão de crédito.

No geral, analistas de mercado gostaram do programa Target, definido como inovador. Mas ousadias têm seus riscos. Se os descontos no cartão de crédito não estimularem os consumidores a comprar mais do que antes, a Target poderá perder dinheiro com a jogada. Com o sucesso, será uma guinada para um negócio de cartões que passou por momentos de perigo. A empresa como um todo chegou a ter declínio dos lucros por oito trimestres consecutivos, até o final do ano passado, enquanto a rival Wal-Mart não fazia feio nem nas piores fases da crise. No primeiro semestre, as coisas começaram a melhorar lentamente. De acordo com os executivos da cadeia varejista, os ganhos resultam de publicidade e promoção de preços mais baixos, algo sempre associado ao conglomerado Wal-Mart. A Target está instalando seções de mercearia em suas filiais e os serviços financeiros estão mais ágeis, com redução dos clientes com cartão Target que atrasam o pagamento.

Mas não há como negar um ambiente adverso, com a desaceleração do uso de cartões nos EUA. O crédito rotativo tem caído mês a mês desde 2008. A favor do programa Target estão fatores como simplicidade e imediatismo, em comparação a benefícios de outros varejistas, que exigem que os clientes acumulem uma certa quantidade de aquisições para se qualificarem para descontos. Target no alvo.

Caio Blinder
Jornalista, participa do programa Manhattan Connection (GNT, Globosat) e é correspondente da rádio Jovem Pan em Nova York

 

Arquivo

Em Nova York, uma churrascaria no ponto sem apetite par...
A história do inventor do caixa automático...
Jean partiu, Jean ficou...
Muitos cartões co-branded têm pouca cafeína nos EUA...
Emissores americanos querem mais de quem gasta mais...
Jovens americanos fazem promessa de que usarão menos o ...
Um teste histórico do novo perfil do consumidor america...
Fraldas e cartões...
Natal morno já será presente quente para cartões americ...
Economia de cem toneladas de papel...
Sociedade cashless pede passagem...
Novas regras, novas jogadas dos cartões...
Consumidores traídos fazem juras de desamor...
Novas leis, novo mundo para cartões nos EUA...
Contração de linhas de crédito supera projeções...
Na crise americana, a vez do cartão pré-pago...
AMEX SE AJUSTA E VOLTA ÀS SUAS RAÍZES...
Cash luta para ser de novo o rei da economia...
Em tempos duros, emissores são flexíveis...
O infeliz ano novo dos cartões de crédito...


 
Smart Card Alliance
topo
Fale conosco | Expediente | Política de privacidade | Política de acesso
Copyright 2005© Empresa Latino Americana de Publicações Ltda. - 55 (11) 5090.2222