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Lições brasileiras: trem-bala, engenheiros e China

 

por Carlos Alberto Sardenberg


Breves observações sobre temas da atualidade:

Trem-bala - Quando foi incluído no PAC, em 2008, custaria uns R$ 20 bilhões, seria licitado em 2009 e rodaria em 2014, a tempo da Copa. Dois anos depois, o edital projeta um custo de R$ 33 bilhões, um aumento de mais de 50% quando a coisa nem saiu do papel. A licitação, com sorte, será no final deste ano, mas já não fica pronto para a Copa nem para a Olimpíada. O prazo de conclusão ficou para 2017.

Além disso, especialistas duvidam que custe “apenas” R$ 33 bilhões, isso comparando-o com o preço em outros países. Também fazendo a mesma comparação, ninguém acredita que fique pronto em “apenas” sete anos depois de licitado. Alguns estudos mostram que, com o preço máximo de R$ 199 na classe econômica, o empreendimento seria viável apenas se o trem estivesse com lotação plena em todas as viagens.

O governo fornecerá a maior parte do financiamento, com subsídio pago pelo Tesouro — logo, pelo contribuinte. Tudo considerado, parece que o projeto não é prioritário nem conveniente. Reparem nesta comparação: com o mesmo dinheiro, os 33 bilhões de reais, daria para multiplicar por seis o metrô de São Paulo. Quando se olha para o Porto de Santos lotado por causa da exportação de açúcar e para os limitados trilhos de ferrovia comum para o transporte da safra, fica difícil entender por que o governo de Lula insiste tanto nesse trem-bala, tentando licitar uma obra faraônica, complexa, pouquinho antes de encerrar seu mandato.

Engenheiros - No início desta década, o salário inicial de um engenheiro recém-formado mal chegava a R$ 1.500,00. Hoje, alcança R$ 4.500. Na Petrobras, vai a R$ 5.500.

O que aconteceu? Os longos anos da crise econômico-financeira, que começa com os anos 80 e só vai ser debelada nos seus pontos fundamentais a partir do real, em 1994, o País passou lidando com inflação elevada e crônica, com reformas monetárias frustradas, déficits nas contas públicas, crises externas, calotes internos e externos (neste caso, dois: uma moratória em 1982 e uma em 87).

A capacidade de investimento do Estado simplesmente desapareceu. A inflação e a desorganização financeira acabaram com o crédito, muito especialmente com o crédito imobiliário, de longo prazo. Como fazer um financiamento de 30 anos quando não se sabe qual será a moeda do ano que vem? Não é de estranhar que a profissão de engenheiro civil tenha perdido todo interesse.

Passa o tempo, o País se ajeita, faz a reforma monetária, organiza as contas públicas e estabiliza a macroeconomia. Uma forte onda de crescimento mundial, do final dos anos 90 até 2008, empurra o Brasil para uma nova era de crescimento. E os engenheiros?

Claro, faltam. Mas a coisa é pior. Hoje, os 1.500 cursos de Engenharia do Brasil abrem 180 mil vagas ao ano. Preenchem apenas 150 mil e, destes, apenas 30 mil se formam; e destes 30 mil, estimase que um quarto não consegue passar nem no primeiro teste de uma seleção de emprego. Resultado: as empresas reclamam que não encontram engenheiros. Mas engenheiros reclamam que não conseguem emprego. Conclusões: há um enorme desperdício na utilização de recursos educacionais. Ter 180 mil vagas e formar apenas 30 mil é um desastre.

Desastre maior é formar profissionais não adequados ao mercado de trabalho, o que significa que boa parte dos alunos é simplesmente ludibriada quando faz faculdade. Pior ainda quando é escola particular: o aluno paga e não leva. Conseguimos o pior dos mundos: ter profissionais que não encontram ocupação e empresas que não conseguem preencher vagas.

Saída de curto prazo: para as empresas, não há alternativa se não elas mesmas treinarem e formarem seu quadro. A Petrobras, por exemplo, está dando cursos de especialização para engenheiros e geólogos. São cursos abertos, não para contratar. É claro que isso tem custo. Mais um pedaço do custo-Brasil. Outra providência imediata é uma intervenção nas faculdades de Engenharia. No médio prazo, reforçar para valer o estudo de Física, Química e Matemática no ensino médio. Será que emociona algum candidato?

China - O governo de Lula tem apresentado como um dos resultados importantes de sua diplomacia Sul-Sul a “parceria estratégica” com a China. E de fato, as exportações brasileiras à China aumentaram de maneira exponencial nos últimos anos.

Mas todos os países que têm minérios e alimentos elevaram espetacularmente suas exportações à China. Para ficar apenas na América Latina, a China é o principal destino das exportações chilenas e peruanas, e o segundo mais importante da Argentina e do Uruguai. No outro lado do comércio, Chile e Peru importam, em primeiro lugar, dos EUA, em segundo, da China, e apenas em terceiro, do Brasil. Argentina importa mais do Brasil, mas em segundo lugar já aparece a China, crescendo. O Uruguai importa, primeiro, da Argentina, e em segundo, da China.

Em todas essas parcerias, a China importa minérios e alimentos e exporta manufaturados e bens de capital. Em todos os países da região, os chineses estão investindo naquelas áreas em que são mais carentes, como terras para produção de comida, minas (e portos associados) e petróleo. Por exemplo, emprestam dinheiro à Petrobras (e à venezuelana PDVSA) em troca de garantia de fornecimento de petróleo.

Aliás, eis aí um verdadeiro problema de diplomacia econômica para o Brasil: o avanço chinês aqui do nosso lado do mundo. Mas a China é também a principal parceira do Irã, dos EUA e da Europa. Eis um caso de realismo e de diplomacia de resultados estratégicos da China.

Carlos Alberto Sardenberg
Jornalista, âncora do programa CBN Brasil, escreve para O Estado de S.Paulo e é comentarista econômico dos programas noticiosos da CBN e do Jornal da Globo

 

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